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Eu tento, mas meu tento não consegue!

E pior do que não conseguir é nunca ter tentado... Bem vindo! Faça de conta que está em casa :)!

Eu tento, mas meu tento não consegue!

E pior do que não conseguir é nunca ter tentado... Bem vindo! Faça de conta que está em casa :)!

A noiva - Parte I

Para aqueles que seguem este blogue hoje, e nos dias que se seguem, terão uma surpresa. Um texto publicado que não é da minha autoria mas de alguém a quem a vida já ensinou umas belas histórias. E que aqui assinará como "Corvo". Já tive o prazer de ler dois dos seus livros e garanto-vos que vale a pena! É com muita honra que recebo estes textos no meu humilde espaço esperando que desfrutem tanto deles como eu, 

 

capela pai tropa.jpgFotografia de uma capela feita pelo meu pai quando esteve no Ultramar

 

Esta sucinta narrativa não é uma novela, romance, embora a intenção seja romanesca. Também não se enquadrará na ficção, se bem que nela se deparem mitos e situações que lhe outorguem esse género. É apenas uma história de amor navegando ao ondular do meu privilegio de imaginação, enquanto autor, dando-lhe o meu cunho pessoal de uma maneira que espero seja agradável.

Veracidade, fantasia, credibilidade, imaginação: será sempre o que a vossa decisão de interpretação quiser que seja. Pelo meu lado, direi. Acredite se quiser.

Posto isto e apelando à vossa melhor paciência, passo então aos factos tal qual eles se desenrolaram e que intitularei.

                                                                                                                                                             “ A NOIVA.”

 

Numa tarde de Agosto do longínquo ano de 1964, encontrava-me no norte de Angola, na região Dos Dembos, província do Huíge, a combater na então denominada Guerra Ultramarina, (designação oficial portuguesa) ou Guerra de Libertação, como mais acertadamente à consideravam os independentistas africanos.

A minha contribuição para a guerra efectiva no terreno já fora largamente ultrapassada e aguardava a pessoa que me viria substituir, e ela chegou nessa Quinta-feira, por volta das três da tarde, e desde o primeiro instante que travei conhecimento com esse rapaz a minha empatia por ele foi instantânea. Era um rapaz alto, de porte atlético e simpatia visível à primeira palavra. Exibia na boca grande e de lábios grossos um franco e sincero sorriso, e os profundos olhos castanhos reflectiam uma pureza de alma dificilmente explicável. E, ainda mais estranhamente, a simpatia foi mútua como se uma normal afinidade desde sempre nos aproximasse.

Nesse ano de 1964, a zona do nosso aquartelamento, até há bem pouco tempo cenário de conflito particularmente sangrento, estava mais ou menos controlada e se bem que os combates se desenrolassem sanguinários e bárbaros por toda a região, nessa zona a tranquilidade fizera pausa e uma quase paz, imperava. As nossas acções de guerra limitavam-se a umas surtidas pelos povos circundantes a fim de controlar a situação, e num ou noutro caso a uns disparos para o meio do mato, com direito a retribuição, a fim de manter vivo o espírito da coisa. Nada de muito relevante, portanto.

No dia seguinte eu deveria fazer o que já tinha feito centenas de vezes: tomar o meu lugar ao lado do condutor auto do Unimog, e com um ou dois pelotões fazer umas explorações a alguns lugares que, ultimamente, pareciam andar a afastar-se dos prazeirosos hábitos de tranquilidade adquiridos. Deveria mas não fui. Foi ele em meu lugar e eu fiquei a arrumar os meus parcos pertences para embarcar na coluna militar que de véspera o trouxera a ele e nesta tarde me levaria a mim.

Estava nestas felizes cogitações, quando, quase logo a seguir à partida da patrulha, uma grande agitação se manifestou à porta de armas. Não deveria surpreender-me, tão banal acontecimento era frequente e praticamente já se tornara o pão nosso de cada dia, mas uma apoquentante preocupação me assaltou e dirigi-me para lá. A patrulha tinha sido atacada e o meu substituto morrera. Antes de se aclararem devidamente os factos, as viaturas entraram de rompante e soube o que acontecera. Não foi um ataque estudado, uma emboscada planeada, nada. Simplesmente alguém que se encontrava no mato e à passagem das viaturas decidira mandar um tiro para lá, que por uma dessas nefastas incongruências de que, por vezes, sem que se compreenda ou se saiba porquê o destino é tão fértil, o projéctil sem destino entrando pela janela da viatura e passando pela frente do condutor auto foi encontrar o peito do desventurado rapaz, que por malfadada sorte, nesse momento se inclinara para diante. Entrou pela esquerda do peito e destroçando-lhe os pulmões, saiu pelo direito.

Antes do pessoal de enfermagem chegar já eu me precipitara para ele. Acometido por profundos remorsos que nunca soube explicar e de olhos toldados, com todo o carinho e uma imensa pena tomei-lhe a cabeça nas minhas mãos. Quando me viu, os seus olhos irradiaram um estranho brilho e como a quem só essa derradeira vontade alentasse, a boca jorrando golfadas de sangue tentou falar, mas os sons eram ininteligíveis. Baixei o meu ouvido à boca ensanguentada e ouvi-lhe, num derradeiro esforço, a voz entrecortada pelo fluxo:

- Diz-lhe que sempre a amei. Deus! Levo-a no coração!

 

Continua...

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