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Eu tento, mas meu tento não consegue!

Sabendo que nem sempre vou conseguir ir aos vossos espaços, mas nunca vos esquecendo e sempre tentando...

Eu tento, mas meu tento não consegue!

Sabendo que nem sempre vou conseguir ir aos vossos espaços, mas nunca vos esquecendo e sempre tentando...

A noiva - parte V

noivafantasma.jpgImagem retirada da internet

 

 

Continuação daqui

Subitamente e sem que quaisquer indícios precursores o dessem a entender, não teria rolado cem metros quando o motor soluçou e todas as luzes, interiores e exteriores da viatura se apagaram. Surpreendi-me, o carro era praticamente novo, comprara-o aquando da minha vinda para o Lobito, mas deduzi que só podia dever-se a um cabo solto da bateria a causa de todo o sistema ecléctico ter ido abaixo. Consegui encostá-lo à berma, abri a porta e saí para ir verificar.

Quando me debruçava sobre a capota, amaldiçoando a cerrada escuridão, uma luminosidade inexplicável envolveu a viatura e quando, naturalmente surpreendido me ergui de supetão, quedei maravilhado e uma estranha comoção me preencheu.

Tinha-se, olhando para ela, uma sensação de irrealidade. A certeza do sol eterno, a explicação do universo flutuante, a compreensão da vida e das coisas, a confirmação do amor, e, paradoxalmente, a tristeza do conhecimento do espaço de tempo que preenche os sonhos daqueles amores que nunca se terão

Fascinado, devorava a deslumbrante noiva de branco imaculado vestida, os longos cabelos de oiro caindo em cachos emoldurando um rosto de uma beleza fascinate, onde nuns profundos olhos verdes uma indelével mágoa transparecia.

E, subitamente, como se ao toque de uma fada caprichosa eu já não estivesse ali e tivesse sido transportado para um mundo paralelo em que tudo que era desconforto neste se tornasse no mais puro deleite naquele, soube que tudo era lógico e tinha a sua razão, que era assim que era, sempre fora e deveria ser.

Meu querido, tenho medo”

“Não tenhas, eu voltarei para te dizer o quanto sempre te amei e eternamente amarei. Juro, minha vida”

“Oh! Sim! Vem! Lembra-te das tuas palavras. Eu também te juro, meu amor. Juro pelo Sagrado sangue de Cristo nunca mais ter paz enquanto não mas disseres”

Um beijo desvairado selaria a loucura daquelas juras sacrílegas.

Uma enorme sensação de tristeza me invadiu, uma pena imensa, a mesma pena que já uma vez sentira ao segurar nas minhas mãos uma cabeça exangue. Aquela mulher deslumbrante que ali subitamente aparecia resplandecente na mais perfeita beleza, personificava, condensava em si a mais inquestionável certeza do amor universal, de todo o amor através dos tempos. Um só pensamento me ocorria. “Esta mulher nasceu para o amor, para amar e ser amada”

 

- Disse-me… disse-me que sempre a amou e a levava no coração.

Um deslumbrante sorriso de inefável felicidade emoldurou o belíssimo rosto e um suspiro em que se condensava todo o tormento de uma alma aprisionada, libertou-se enfim.

Não a vi entrar para o carro, mas sentada no assento do passageiro, sussurrou na voz mais doce e meiga que já me foi dado ouvir:

- Leve-me a casa.

Um imenso frio se instalara no habitáculo e, instintivamente coloquei o meu blusão sobre os delicados ombros . Ela aceitou e aconchegou-se nele. Sem nenhuma dúvida rodei a chave, acendi os faróis, dei meia volta e dirigi-me para onde sabia dever ir. Muito embora tomando eu o volante, sentia a autonomia de um carro que me conduzia..

Nunca lá fora, não conhecia, não havia motivos para conhecer, mas sem qualquer hesitação sabia para onde devia ir e como ir. Atravessei a cidade de Benguela, sai pela parte norte, continuei e fui-me deter aos portões, agora fechados, do cemitério dessa cidade.

Não a vi sair do carro. Como se flutuasse, caminhou em direcção aos portões do cemitério, voltou-se uma última vez para mim e desapareceu para o seu interior.

Agora que ela se fora, toda a naturalidade de antes me abandonara. Mas, que fazia eu ali? Que se passara realmente? Não podia ser verdade, não havia racionabilidade para aceitar. E se afinal tudo não passasse de um sonho? Ou estaria louco e viera para ali sem saber como nem porquê? “Sei lá o que se pensa e se faz quando se está doido?”

Incrédulo e perturbado, nem dei por mim a forçar as grossas portas de madeira do cemitério, mas, como seria expectável elas não abalaram um milímetro que fosse.

Não vou pormenorizar as explicações que dei à minha mulher. Conhecia-me bastante bem para me ouvir sem necessidade de explicações acrescidas conducentes à confirmação da verdade

Foi ela quem quis lá ir. As portas estavam abertas a essas horas da manhã, e sem quaisquer dúvidas nem hesitações, como se desde sempre lhe conhecesse a morada, em passo seguro passei por todas as campas e fui-me deter sobre o mármore da sua.

- Como ela era linda, - ouvi nas minhas costas a voz comovida da minha mulher olhando para a foto que lhe emoldurava a campa.

Baixei-me e peguei no meu blusão, cuidadosamente dobrado sobre o mármore, e abraçando a minha mulher retirámo-nos dali.

Fim.

 

Obrigada amigo Corvo por ter deliciado este humilde espaço com sua escrita.

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