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Eu tento, mas meu tento não consegue!

Sabendo que nem sempre vou conseguir ir aos vossos espaços, mas nunca vos esquecendo e sempre tentando...

Eu tento, mas meu tento não consegue!

Sabendo que nem sempre vou conseguir ir aos vossos espaços, mas nunca vos esquecendo e sempre tentando...

Apenas um toque...

 

quarto antigo.jpg

 

Chegara o dia do seu casamento, o propósito da sua ida para Espanha quando tinha 10 anos. Obrigaram-na a realizar um papel que não pedira, o de noiva de um rapazola mais velho que ela. Embora a diferença de idades agora não seja notória, na época era algo assustadora!

 

Felizmente nutria pelos pais de Afonso, e agora também seus, um verdadeiro amor que fora, naturalmente, crescendo ao longo dos tempos. A relação que mantinha com eles, e apesar de pertencerem à alta nobreza espanhola, era forte e carinhosa. Algo que nunca tivera, ou sentira, com os pais que deixara há anos para trás, que eram pessoas mais rígidas e extremamente conservadoras. Vira-os hoje, no dia do seu casamento, tratara-os com simples cortesia. Talvez ainda não lhes tivesse perdoado o facto de a terem enviado para longe com tão tenra idade. Tivera, no entanto, sorte mas sabia bem que poderia não ter sido assim.

 

Obrigara-se a desenvolver uma maturidade fora do vulgar para uma mulher, ou pelo menos para o que se esperava delas. Fez por se instruir, por aprender cada vez mais, e até por executar algumas ocupações mais destinadas a cavalheiros. Por exemplo, não era de todo vulgar ver-se uma jovem dama dedicada a aprender a arte da esgrima, ela própria não conhecia ninguém! Mas seus novos pais eram condescendes para consigo e possuíam um discernimento fora do comum.

 

Apesar de o passado ter ficado para trás isso ainda a magoava, fizera então de um tudo para se fortalecer, quer a sua mente, quer a sua parte física. Nessa parte da sua vida ela podia exercer algum domínio e fora-lhe dada liberdade para isso.  

 

Chegara aos 18 anos e começara a perceber que Afonso não fazia intenções de regressar. Não podia ser eternamente a noiva de uma pessoa cujo rosto já mal se lembrava! Se a fizeram ir até ali para se casar pois então que houvesse um casamento! A maioria das jovens da sua idade, e que pertenciam à alta sociedade, já se encontravam casadas. E os comentários começavam a florescer por entre alguns círculos de conhecidos, já ouvira um ou outro menos agradável, não que lho dissessem directamente, mas existia sempre alguém que se auto intitulava de "muito amigo" que não se rogava de lhe entregar a mensagem.

 

Dizia-se sobretudo que Afonso não a queria porque ela sabia demais para ele. Ou que sabia domar cavalos mas os homens não eram para ela. Enfim... mentes sujas sob uma capa polida por um sorriso hipócrita!

 

E estava agora, no quarto de vestir, sozinha. Mariana, a criada de quarto, que considerava uma amiga, já se tinha recolhido, e ela adiava a entrada na divisão que dividiria com Afonso, seu, agora, marido. Esfregando uma mão na outra, e tentando, inutilmente, afastar o nervosismo, começava a duvidar se fora boa ideia insistir no cumprimento do estabelecido. Um casamento arranjado pela conveniência de duas famílias da alta sociedade!

 

Não sabia há quanto tempo se encontrava assim, à espera. À espera sem saber bem do quê! Talvez de coragem para enfrentar a sua primeira noite com um homem com quem mal trocara meia dúzia de palavras quase arrancadas a ferros! Afonso que tinha todo um jeito de não ser nada dado a romantismos. Começava a desconfiar que ele a odiava! E aquela maldita cena na Igreja dera força a essa ideia.

 

Decidiu enfim transpor a porta que separava a divisão em que se encontrava daquela para a qual teria que se entregar. Rodou a maçaneta o mais lentamente que pôde tentando não fazer nenhum ruído. Penetrou na penumbra do seu futuro quarto, o luar entrava tímido pelas vidraças das grandes janelas. Existia um silêncio perturbador. Percorreu com inquietação o caminho até ao leito nupcial já com a sua roupa afastada convidando ao descanso, ou a algo mais...  Exalou alívio ao constatar que Afonso não se encontrava lá. Estava só.

Deitou-se, um breve arrepio a percorreu ao contactar com os lençóis frescos. Já ia longa a noite, sentiu-o entrar na divisão, seus passos graves a aproximarem-se do local onde ela se encontrava. A cama queixou-se sob o peso do corpo que a transpunha. Ele estendeu-se sem lhe tocar, apesar disso sentia o calor de seu corpo. Queria que o acto de respirar soasse regular mas a sua sensação é que tinha parado de inalar o ar que necessitava! Mas Afonso deixou-se ficar assim. Longe se si sem lhe tocar até que amanheceu...

 

Isabel pouco dormira e quando conseguia deixar-se enlevar pelo sono voltava a acordar ao mínimo ruído, mas já ia alto o sol quando foi acordada por um leve bater na porta. Pestanejou e olhou instintivamente para o lado constatando que estava novamente só.

- Entre por favor.

A porta entreabriu-se com hesitação e surgiu a cabeça de Mariana.

- Bom dia menina dorminhoca! Posso entrar?

Isabel sorriu aliviada por ver uma cara amiga. E deixou-se finalmente descontrair pela conversa corriqueira e pela rotina diária.

 

Nesse dia Afonso estava bem disposto e trocara com ela mais palavras do que o costume! Isabel começava a pensar que afinal tinha tirado conclusões precipitadas a seu respeito. Ele era divertido, amigo e simpático. Via que era muito carinhoso com a mãe. Apenas não o era consigo mesma. Mas talvez fosse exigir demais logo à partida que ele fosse tudo isso com ela! Mas agora que estavam casados a cumplicidade surgiria certamente.

 

Entretanto, mais depressa do que julgava, caiu a escuridão. E com ela todo o ritual da noite anterior e ele voltou a não lhe tocar! Nem nessa altura, nem nos dias e noites que se seguiram...

 

Sentia-se mortificada pelo peso da rejeição. E calava-a. Mais uma vez sentiu-se só...

 

Continua....

 

 

 

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