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Eu tento, mas meu tento não consegue!

Sabendo que nem sempre vou conseguir ir aos vossos espaços, mas nunca vos esquecendo e sempre tentando...

Eu tento, mas meu tento não consegue!

Sabendo que nem sempre vou conseguir ir aos vossos espaços, mas nunca vos esquecendo e sempre tentando...

O meu Abril (1ª parte)

 

O novo acordo ortográfico diz que os meses se escrevem com letra minúscula, desculpem-me os "senhores do acordo", mais em desacordo que eu já vi, mas Abril para mim é com maiúscula! Não só porque é o meu mês, como é o mês que tornou os portugueses, pelo menos a sua maioria, despertos para a palavra "liberdade".

 

No meu artigo anterior (post para os mais Ingleséfilos), que escrevi sobre Abril, recebi alguns comentários de teor duvidoso. Não só pelo conteúdo menos educado, como pelas ideias que não me faziam muito nexo. Palavras soltas deixadas ao calhas e quem quiser que organize. Infelizmente ao apagar um menos adequado outros foram à vida também. Acontece. Peço desculpa se apaguei algum indevidamente. Foi a primeira vez que apaguei comentários e apesar de terem palavras e frases pouco construtivas, mais para o brejeiro e mal educado mesmo, ainda ponderei se o deveria fazer. Mas o Blogue é meu, e ou aprendem a reger-se pelas regras da argumentação e boa educação ou vão dar uma curva ao bilhar grande que é ali mesmo ao lado. Se estão de mal com a vida aconselho a ingestão de um frasco de mel diário pode ser que adocem. Para distribuição de limões gratuitos não estou disponível, obrigada.

 

Adiante...

Um dos comentários que continha linguagem indecorosa, apesar das frases sem grande nexo, o seu sentido era dizer que eu falava bem do 25 de Abril porque era citadina, nova e burra. Pois bem, nada mais errado, tirando a parte do burra que pode ser discutível, mas eu tenho uma boa opinião sobre mim própria, não tenho um elevado QI mas dá para o que quero.

 

Convido, quem quiser continuar com as linhas que se seguem, e tiver paciência para essa leitura, a recuar comigo ao meu Abril. No meu 25 de Abril de 1974....

 

Estava um dia quente, daqueles dias que amanheciam numa Angola distante da metrópole, na minha casa pouco se entendia de partidos políticos e de necessidades de libertação. Meu pai foi obrigado a ir para uma guerra que lhe trouxe muitos dissabores. Perdeu o pai ainda na maldita guerra, como ele lhe chama. Regressou e tentou fazer vida. Recém casado, decidiu com a sua jovem esposa, grávida, abalar para Angola à procura de uma vida melhor, em fuga de um Portugal sem grandes esperanças para pessoas com apenas a 4ª classe, que pertenciam a um Trás-os-Montes perdido e esquecido. Lembram-se que naquela altura estiveram para escolher entre a Alemanha e Angola. Mas em Angola falava-se o Português e afinal era uma colónia que pertencia a Portugal. Além disso, uma país do qual diziam maravilhas! A maior parte da família estava para lá e assim o sentimento de abandono à terra não seria tão sentido.

 

Pessoas simples de uma aldeia, habituadas a nada ter e a lutar imenso pelo pouco que conseguiam. Apenas queriam mais para a sua prole, o futuro que ameaçava aparecer a qualquer momento.

 

Mas naquele dia algo mudava, sentiram isso na notícia que um amigo lhes trouxe naquele entardecer! O regime caiu! Deu-se o 25 de Abril!

 

Mas que significa isso? A pergunta pairava-lhes no ar....

 

A resposta não tardou. Naquela semana notava-se uma certa agitação nas pessoas.

A lavadeira de uma amiga começou a deixar bilhetes escondidos, que foram sendo descobertos após o seu sumiço sem explicação. A missiva que continham era, não um pedido, mas antes um aviso, "BRANCO VAI-TE EMBORA" ou, "ANGOLA É NOSSA!"

 

Meus pais começeram a sentir algo que nunca tinham sentido até então, a cor da sua pele branca. Muitos "amigos" ditos de cor, esqueceram que a amizade não se guia por esses preconceitos e deixaram de aparecer. Muitos dos que simpaticamente falavam fingiam agora não terem dentes para sorrir.

 

Mas afinal que mal fizemos nós? Questionavam-se baralhados aquelas duas pessoas, os meus pais,  que encerram em si uma certa ignorância.

 

Não muito tempo depois da "notícia dada" ouviram-se os primeiros tiros em Angola. Não muito longe da rua onde morávamos em Luanda. Eu estava no meu baloiço e sinto mãos fortes e aflitas a agarrarem-se e apreensivamente a fugirem comigo para casa onde tudo é fechado à pressa! Correm-se persianas, encerram-se portas agitadamente. E os tiros... esses ainda se ouvem!!! Minha mãe reza... meu pai está lívido e não me solta. Sinto suas mãos quentes e suadas a pressionarem-me mais do que gosto. Esqueço-me de chorar... o susto tirou-me esta reacção natural.

 

Diziam que alguém tinha morto um taxista branco! E as fontes falavam que o assassinato foi perpetrado pelos negros dos arredores de Luanda. Não muito tempo depois ouviu-se que a vingança não tardou, e alguns taxistas portugueses atacaram vários musseques, os bairros dos pobres, ao redor da capital. E num olho por olho, dente por dente, numa Luanda a ferro e fogo as reações seguintes agudizaram ainda mais a situação: as lojas dos brancos portugueses, mais de 1000, nesses musseques, começaram a ser saqueadas e queimadas com a população a festejar por cada estabelecimento destruído. E os tiros continuavam...

É decretado o recolher obrigatório. Alguns camionistas e taxistas desobedeceram a este recolher e passearam-se com bandeiras içadas nas viaturas, dizia-se que um jovem de 14 anos foi morto no tiroteio desordenado entre militares a ocupantes dos carros.  O medo ganha raízes.

 

Começa a faltar comida. Na minha casa, um amigo que tinha uma mercearia leva, perto da hora do recolher, alguma comida. E a ele devemos não ter travado conhecimento com a verdadeira fome. Este amigo sabia que existia uma criança naquela casa, e o futuro era para ser protegido. Só pão falta.

Minha mãe não saía e meu pai ia unicamente trabalhar e depressa voltava.  

 

Temos de voltar. Temos de sair daqui. É o que pensam, é o que precisam!

 

Chega um tempo em que começaram a deitar-se vestidos e prontos para fugir pela noite caso necessitassem. Uma noite ouço os sussuros dos meus pais e distingo, na voz apreensiva do meu pai, "Ainda bem que a menina consegue dormir", mas a menina não conseguia... "Pai, porque estás assustado? O que se passa?"

Claro que as suas desculpas não resultaram. Tal como disse, o meu QI não é elevado mas serve.

 

Sou acordada de madrugada, tirada da cama e levada para a rua onde já não ia há algum tempo. Meus pais seguem num silêncio cismático. Eu, que tanto falo, decido que prefiro nada dizer e acompanhá-los nesse silêncio que não entendo. Pára um jipe da tropa que tem escrito as letras "FNLA". Que quer isto dizer?

Perguntam aos meus pais se não sabem que ainda está na hora de recolher obrigatório?

Eles sabem... mas precisam de ir à Delegação de Saúde para receber a vacinação obrigatória a fim de regressar a Portugal, e nestes dias é impossível as filas que ali se ressentem! Tiveram que ir de madrugada para poderem ter atendimento com a menina.

Do dentro o veículo ouve-se a ordem:

"Entrem no jipe!"

Sou levada pelos braços suados que me apertam mais, outra vez aquele aperto que me atormenta. Deixam-nos à porta da Delegação de Saúde e pedem aos meus pais para terem cuidado, "As coisas não estão boas e deram connosco, senão não teriam tanta sorte!"

Sorte, foi o que tivémos. Meus pais confessaram mais tarde que pensaram que não iam sair vivos daquele jipe. Mas algumas almas não se extinguem mesmo na desventura!

 

Mais uns tempos naquela Luanda... onde no quintal se sentia, no calor daquele Abril, um cheiro fétido trazido pela brisa. O cheiro a morte. Dizia-se... dos mortos que se acumulavam na Delegação de Saúde onde esperavam o seu destino.

Isto vai melhorar, dizia-se... Será?

 

As malas são feitas tenta-se levar o que se pode. Só sou autorizada a levar comigo o meu hipopótamo verde, que me acompanha nas noites de sonho, e o meu piano pequeno. Nada mais. Tudo o que é meu é encarcerado em malas que nunca mais vi...

 

Seguimos numa fila de gente. Quero colo. Meu pai segue à frente carregado com o que pode. Minha mãe não pode dar-me o que preciso. Colo. Não tem espaço nos seus braços cheios, uma sacola, discos e o meu piano ocupam o lugar que anseio. À frente "os que mandam" tiram algumas coisas às pessoas. Minha mãe, num momento de lucidez, pousa a sacola e dá-lhe um ligeiro pontapé deslocando-a para a pessoa à sua frente, que nada lhe diz, que não conhece, e esse alguém passa a sacola, do mesmo modo, para o indivíduo imediatamente a seguir. E de toque esperto de pé, em toque astuto, a sacola passa os guardas sem que estes lhe deitem a mão. Nada tem de importante para eles. Só a simplicidade dos meus pais. Uma garrafa de champanhe que sobrou do meu batizado e um pequeno rádio a pilhas. Uma sacola que mostrou que há sempre união na desesperança.

 

Chegamos a Portugal. Não ouvia mais tiros, mas meus pais ainda sussurravam tristemente a noite. E eu podia ouvir minha mãe a chorar baixinho...

 

Continua....

 

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